quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Epitáfio

Hoje eu me peguei pensando que a gente nunca sabe a que horas vai dar no pé desse planetinha azul. Mas como é de costume, acabei me preocupando justamente com o detalhe de menor importância. Achei fundamental deixar um epitáfio pronto, por escrito e registrado aqui no blog, para que ninguém se faça de desentendido. Vai que eu junto os calcanhares hoje mesmo e aí vão ter que incumbir alguém desse trabalho sujo. E vai que o infeliz resolva cometer o equívoco de me homenagear, né? Então achei melhor antecipar as coisas e deixar tudo pronto, para evitar complicações posteriores. Sim, porque faço questão de um epitáfio. Não poderia sair de cena assim, no vazio. Então segue o dito cujo:

Aqui jaz um saco de ossos. Sim, porque eu já dei no pé faz tempo. Coisa mais sem graça é cemitério. Se ainda tivesse vista pro mar... 
Da vida levo alguns arranhões na alma e nenhum arrependimento. E se fiquei devendo alguma coisa, agora mesmo é que não vou pagar.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Questões de gênero



Eu me divertia muito com aqueles programas de namoro do Silvio Santos, principalmente quando ele perguntava ao candidato sobre seus relacionamentos anteriores, por que não tinham dado certo. A resposta quase sempre era a mesma.
− Incompatibilidade de "gêneros".
Então talvez fosse o caso da criatura tentar alguém do mesmo gênero, pensava eu.

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Dia desses entrei no elevador com um cara que pesava mais ou menos uns 150 kg. Ele respirava com dificuldade e batia papo com um vigia fardado. Quando o gordinho desceu, alguns andares antes do térreo, o vigia comentou comigo:
− Agora tá assim, mas jogava muita bola.
Percebi que “jogar muita bola” é um atenuante para tudo. Certamente a qualidade mais valorizada em um homem quando analisado por outro homem. Ou talvez a única permitida.

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O cartunista Laerte é um dos caras mais inteligentes e respeitáveis que eu conheço. Além de fazer tirinhas geniais, de uns anos pra cá ele resolveu extrapolar a sua feminilidade, vestindo-se literalmente de mulher. Mas o mais interessante disso é que, nessa história toda, a sua preferência sexual é o que menos importa, pois só diz respeito a ele mesmo. O que fica claro é que ele desafia as diferenças de gênero para ir mais além: para que as pessoas se perguntem por que as coisas são como são. É algo que deveríamos fazer o tempo todo e fazemos tão pouco. Assisti a uma entrevista em que ele chamava atenção para o fato dos homens serem mais rígidos nesse sentido. As mulheres usam cabelo curto e roupas masculinas desde o século passado, mas ver um homem vestido de mulher hoje em dia ainda é um choque tremendo.
Em tempo: Laerte usava um vestido curto na entrevista. E as suas pernas depiladas, olha, vou te contar...

domingo, 27 de janeiro de 2013

Boate Kiss, a dor de cada um


Dia desses eu estava na fossa e acabei escrevendo um poeminha que falava sobre a nossa incapacidade de sentir a dor dos outros. Era tão ruim que eu deletei. Mas era mais ou menos assim: “A dor do outro é protegida por arame farpado. Sofrimento é propriedade particular”. Sofrível é o poema, sim, eu sei. Mas pior que isso: ele não faz sentido. Ou deixou de fazer sentido quando chegou até mim a notícia da tragédia de Santa Maria, com mais de 230 mortos, trancados em uma boate. Muitos deles asfixiados pela fumaça. Alguns carbonizados. O sofrimento daquelas pessoas, de seus familiares, dos amigos, dos sobreviventes, dos bombeiros, do RS e do Brasil é hoje o meu sofrimento também. Coletivo, compartilhado, multiplicado.

Não me interessam na verdade os erros de cálculo ou de noção que motivaram a tragédia. A dor é maior que tudo. E eu me surpreendi com ela presa no meu peito. Tudo bem que eu tenha uma ligação com a cidade, pois vivi lá anos muito legais da minha vida. Tudo bem que eu me identifique de certa forma com aqueles jovens, pois já frequentei, como eles, locais parecidos. Estive exposto aos mesmos riscos. Mas por que, se não tenho parentes envolvidos na tragédia, ou amigos... por que ela me dói assim? Não tenho essa resposta e acho que nem é necessário tê-la. Talvez eu pense na minha filha, que felizmente dormia tranquila em seu quarto quando tudo aconteceu. Tem apenas seis anos. Gostaria que tivesse seis anos pelo resto da vida.

Investigando o que sinto, talvez eu encontre culpa. Culpa por fazer parte dessa humanidade que não trata mal apenas velhos e crianças. Que trata mal os seus jovens. Antigamente os enviava à guerra. Hoje os embebeda e coloca diante de um volante. Hoje os trancafia dentro de uma boate em chamas. Hoje os expõe a uma vida de incertezas, de violências das mais diversas proporções. Sim, como humano sou culpado. Falhei com eles. Por isso sofro por eles e com eles.

Mas, talvez, pensando bem, meu poema estivesse certo. Posso imaginar hoje o que sentem os familiares das vítimas, mas não chego nem perto de saber o que estão realmente sentindo. Não há como. Só desejo que possam sepultar os seus filhos e amigos em paz e que encontrem, em todos os próximos dias de suas vidas, alguma razão para que a dor seja, ao menos, minimizada. Porque não importa o que se faça ou o que aconteça, o fogo do teto da boate Kiss nunca vai se apagar. E para um pai, uma mãe, a falta que um filho faz é algo que só eles podem sentir e que ninguém poderá jamais entender ou explicar.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Fronteiras


O homem e o menino estão fugindo de uma guerra onde talvez nem tenham uma posição definida. Talvez nem sejam contra o regime de Bashar al-Assad, que impõe, com violência e morte, limites à liberdade de expressão. Dá para ver que sofrem. Mas esse texto não é sobre sofrimento. E nem sobre guerras. É sobre atravessar fronteiras. E o que é, enfim, uma fronteira? É algo físico, geográfico, visível, mas é muito mais.

O homem e o menino estão atravessando a fronteira entre a Síria e a Turquia. Há nos seus olhos uma certa ansiedade. Olham para algo que talvez ainda não conheçam. Uma terra vizinha, porém estranha. Algo novo e incerto, porque o antigo já é impensável. O que farão lá? Haverá trabalho, comida, condições de construir um lar? Isso pouco importa agora. Fogem, porque foi a alternativa que restou. E talvez só tenhamos realmente a coragem de atravessar quando algo nos empurra. Fronteiras são as referências da mudança.

Na Turquia, o menino será um homem. O homem, logo será um velho. Talvez até lá a Síria se pacifique. Talvez um regime desmorone e outro se levante. Jamais voltarão à velha Síria, esta será nova então. Se há expectativas para além da fronteira, também há naquilo que fica para trás dela. Há quem sonhe com um mundo sem fronteiras. No caso do homem e do menino, ainda bem que elas existem e que podem ser alcançadas.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Falou e disse

A nossa língua portuguesa tem expressões pitorescas que renderiam uma boa conversa de bar. Cada uma com a sua utilidade. Tem aquelas que servem para dizer a mesma coisa, só que de um jeito diferente. Tem também as expressões muito úteis para aqueles que não querem dizer nada, ou seja, para quem só quer “chover no molhado”. “A priori” e “no âmago da questão” eram as preferidas de uma certa professora minha na faculdade. Ora, mas quem está interessado no que não está “no âmago da questão”? Melhor seria ir mesmo direto ao ponto para terminar logo aquela aula chata.

Mas a expressão que eu mais gosto, disparado, é essa: “e aí que eu me refiro”. Essa é imbatível. Embora gramaticalmente estranha (falta uma preposição ali, creio que o mais correto seria dizer "é a isso que eu me refiro", mas dessa forma perderia todo o seu encanto e a sua, com o perdão da redundância, expressão), tem o poder de encerrar qualquer conversa, qualquer discurso, porque chega justamente no ponto G do assunto em questão. Chegamos lá, não tem mais o que dizer. Tudo o que vem depois é supérfluo, o mais completo papo furado. Ouvi essa hoje no almoço. Depois disso, fez-se um silêncio retumbante no recinto.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Palco vazio


Foto: Clarice Pereira

Há exatamente três semanas, a essa hora estávamos a caminho de Cabo Frio-RJ. Eu, o sujeito aí da foto e mais vinte e poucos malucos que gostam de parar na frente da plateia e cantar. Durante a viagem, eu e este distinto colega acabamos dividindo o mesmo quarto da pousada e também o palco, como fizemos no fim dos anos 90 no Coral Unisinos e durante todo este ano de 2011 no Madrigal Presto. Foi um pouco preocupante ver a sua barriga e os pés inchados, a debilidade da doença, mas, ao mesmo tempo, foi empolgante ver a coragem, superação e disposição que demonstrou para estar ali apesar de tudo se posicionar contra isso. No fim do primeiro concerto em Cabo Frio, na noite de quinta-feira, chorou copiosamente. Sentia, talvez, que já não teria mais muitas oportunidades como aquela de fazer o que gostava, ao lado dos amigos que escolheu para passar uma parte importante do seu tempo.

A quem não o conheceu, não saberei descrevê-lo. Acho um erro encher uma pessoa de adjetivos pensando que assim vai poder dizer quem ela foi, ou é. Ele era simplesmente o Oscar. Até às 5 da manhã de hoje. Depois disso passou a ser uma voz que não cessará o seu canto em nosso pensamento. Uma imagem eterna, ao lado da ave de madeira, olhando para o além, quem sabe visualizando o que ainda não podemos ver.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Orlando

Hoje vou quebrar um silêncio de nove anos. Em julho de 2002 eu perdi o meu pai e desde então não consegui falar muito sobre o assunto. Mas hoje, não sei explicar a razão, deu vontade de dizer algumas coisas. Então lá vai.

Meu pai era um cara de voz forte. Sua simples presença (ele era grande não só para mim) já decretava uma certa autoridade. Uma autoridade doce, generosa, conciliadora e justa. Quando não conseguia conciliar e era desafiado de forma mal educada, simplesmente se calava e fechava a cara. Assim como fez nos últimos dias da doença. Doença mal educada. Ele se sentava em um sofá da garagem, com a cabeça entre as mãos, na companhia de um gato da vizinhança que o neto Tiago apelidou de Trovão. O mesmo Trovão que, no dia da morte do pai, andava de um lado para outro, miando sem parar. Para o Trovão o pai fora embora muito rápido, assim como para mim. Nem daria tempo de conhecer a minha filha, nascida quatro anos mais tarde.

Da infância eu tenho recortes visuais. Os passeios de carro pela cidade no domingo, sem nenhum destino certo. As idas à “granja” onde ele trabalhava, dias de grande adrenalina pra mim, um guri da cidade. A noite em que ele me tirou da cama para ver o cometa Halley. A madrugada em que ficamos acordados juntos para ver o Renato meter duas buchas e o Grêmio ser Campeão do Mundo. As pescarias noturnas, ele sempre com medo das cobras. As pegadinhas nos dias festivos, com presentes escondidos em lugares inatingíveis. As histórias de assombração que ele jurava ter visto.

Seu hobby preferido era fazer churrasco. De preferência em larga escala. Organizava o almoço da Festa da Colheita para mais de quinhentas pessoas. Muitas vezes se confundia com as palavras. Trocava “recinto” por “recipiente”, “embalo” por “embalagem”, “retrovisor” por “retransmissor”. Não era muito de demonstrar sentimentos. Só nos seus últimos tempos, em que ficava emotivo e começava a falar sem parar sobre a forma grotesca como fora tratado por meu avô durante a infância. Apanhava por não trabalhar o suficiente na lavoura, numa rotina de escravidão que durava desde o nascer do sol até o anoitecer. Até o dia em que fugiu de casa e se escondeu no mato para não apanhar mais.

Fico imaginando o que ele me diria hoje, se me visse. Provavelmente diria para eu andar na linha e parar de dar cabeçadas na parede (ele me conhece e sabe que faço isso). Mas, depois de passar pela reveladora experiência da morte, talvez ele apenas me dissesse para seguir meu coração, por mais que isso me custe. Sem sentimentalismos, claro, porque nós alemães não somos afeitos a isso. Pobres de nós. Ou talvez ele só me dissesse que a minha companhia lhe faz falta, como me faz a dele. Talvez. Porque se a vida é feita de incertezas, tanto mais é a morte.

Bom, essa é a história de um homem desconhecido. A minha história sobre ele. Ou pelo menos uma pequena parte da história. Porque sou um cara de poucas palavras e de textos sem fôlego. E nesse pequeno mundo que envolve a Rua Carlos Ernesto Knorr e a Granja Cipó, em Belizário, para mim, desde julho de 2002 e para sempre, haverá um silêncio imenso e ensurdecedor.